Paulo Esteireiro
O Funchal teve uma intensa actividade cultural ao longo da primeira metade do século XX, embora nem sempre com boa regularidade. Entre as várias actividades culturais deste período, o género "Revista" ocupou um lugar de destaque no final da década de 30 e ao longo da década de 40. Uma das principais personalidades musicais da revista madeirense foi o Capitão Edmundo da Conceição Lomelino, que compôs parte importante das revistas representadas no Funchal.
No campo militar, o Capitão Lomelino pertenceu à Infantaria e fez parte do Corpo Expedicionário português que participou na 1.ª Grande Guerra (1914 -1918) em França, onde teve uma acção pela qual foi condecorado. Regressado à Madeira, dedicou-se ao ensino na Escola Industrial - os alunos desta escola foram sempre o núcleo das suas revistas - e à composição musical, tendo composto várias peças para piano (valsas e géneros modernos como o “one-step”) e revistas. As revistas compostas pelo Capitão Lomelino alcançaram um enorme sucesso entre o público do Funchal, tendo as suas apresentações esgotado por diversas vezes a lotação do Teatro Municipal. Entre as mais importantes destacam-se as revistas "Água Benta", "A Primavera", "A Madeira em festa" (1938) - também representada nos Açores -, "Carnaval" (1939), "Bolas de Sabão" (1944) - antes das estreia já tinha três espectáculos esgotados - e "Flores da Madeira" (1945).
As histórias das revistas estavam por vezes ligadas a acontecimentos políticos da época. Um bom exemplo disso é a revista "Carnaval" em que o Capitão Lomelino compôs a música sobre um texto de Teotónio da Silva (1900-1976) - o dramaturgo com quem o compositor colaborou mais frequentemente nas suas revistas. Nesta revista, Teotónio da Silva realizou uma paródia à conferência de Munique de 1938, onde Inglaterra e França cederam às intenções da Alemanha de Hitler e da Itália de Mussolini, assinando o "Acordo de Munique". Neste acordo, ingleses e franceses davam à Alemanha os Sudetas e o controlo efectivo do resto da Checoslováquia, sendo a contrapartida a promessa de Hitler não ir mais além...
Na paródia madeirense sobre esta conferência, Mário B. de Abreu fazia o papel de Mussolini e Vasco Vitorino Pereira fazia de Hitler. A revista encaixava bem no espírito do Estado Novo, incluindo um número patriótico intitulado "Glória a Portugal".
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